TESTAMENTO MARAGATO

Osmar Antonio do Valle Ransolin

Perguntas quem eu sou?
De onde venho?
Pra onde vou?
Sou apenas um soldado,
E este lenço colorado
Foi tudo que me sobrou.

 

Se perguntas quem eu sou
Não respondo com certeza,
Nas paredes da fortaleza
Fui perdendo a identidade
A consciência e a sanidade
Sucumbiram ao medo
E te conto um segredo,
Escute com atenção:
A vida, nessa prisão
Nos foge, no vão dos dedos.

 

Estou aqui há meses,
Muito mais do eu queria...
Não vejo noite, nem dia,
E nem o tempo passando.
Só os cativos chegando:
Um mais fraco - outro mais forte
Mas todos com a mesma sorte,
Réus da mesma sentença
- E esse olhar de descrença -
De quem caminha pra morte.

 

Fui chamado pra lutar
Parece que há tanto tempo!
Me alistei num regimento
Na volta da Vacaria,
E no raiar do outro dia
A guerra andava no ar...
Era o clarim a reboar
Com chamadas militares
Dizendo que Joca Tavares
Viera nos comandar.

 

Andamos peleando à toa
Sofrendo por todo lado,
Porque ninguém dá costado
Pra gente viver a vida:
Ou se nasce com guarida,
Com plata, campo e gado
Ou o destino amargurado
Expulsa a gente da terra
Pra nos botar numa guerra,
De lenço branco, ou colorado.


Meu pai foi sargento,
Nas tropas de Souza Netto
E me deixou esse decreto:
De que lenço, é encarnado!
E por nunca ter mudado
De partido ou de senhor,
Dizem que sou de valor,
Me julgam um bom sujeito
Mas de que adianta ser direito
Se se morre, por uma cor?

 

Vim pra Santa Catarina
Pra expandir a conquista
A glória federalista
Proclamada em cada canto!
E à beira dum campo santo
Entre miséria e tristeza,
Nos batemos com nobreza
No combate derradeiro,
Mas findamos prisioneiros
Nessa maldita fortaleza.

 

Anhatomirim...
O torrão abandonado
A ilha dos condenados,
Onde a desgraça é soberana
Na aparência, nos engana:
Não há correntes ou grilhões...
Mas nas masmorras e porões
É que a morte faz tocaia
E o sangue colore a praia
Por tantas execuções.

 

Anhatomirim...
Um inferno no oceano!
O martírio sobre-humano
Renovado a cada dia,
O sofrimento e a agonia
Dos que aguardam julgamento,
Na espera em cada momento
Há de chegar a decisão:
O pranto – a escuridão
E por fim o esquecimento.

 

Daqui ninguém sai,
Nem depois de morto,
Sequer este conforto
Nos é concedido então...
Um enterro cristão
Nada vale pra esta gente!
Quem morre, morre descrente,
Sem enterro ou funeral
Seja soldado ou general:
A morte não vê patente.

 

Até mesmo o Gama D’Eça
Que aqui entrou Marechal
Não teve melhor final,
Se foi como um coitado!
Neste destino traçado,
Que assombra a todos nós
Este caminho atroz
Que nos tira da prisão
Pra de joelhos - no chão
Enfrentarmos o algoz.

 

Na vida, em qualquer hora
É preciso alguma sorte
Porque o índio, por mais forte
Fraqueja no arremate
Se perece no combate
A queda tem mais valia!
Mas não existe covardia
No bravo que morre preso,
Torturado e indefeso,
Honrando o que defendia.

 

Aqui, há três caminhos
Dos quais ninguém escapa.
O primeiro é a ilhapa,
Da Árvore do Enforcado.
Por ali muito soldado
Seja mais velho ou mais moço
Deu o último retoço,
Sem o lenço colorado
Que na hora foi trocado,
Pela corda no pescoço.

 

O segundo é o poço,
O Poço dos Horrores.
Ali vão os traidores
Os que trocaram de lado,
Quem viu que estava errado
E se engajou com o Gumercindo
Naquele projeto lindo
De um país mais soberano!
E por ordem do tirano,
Pra cá acabaram vindo.

 

E por fim, aos oficiais
Pra os quem tem identidade,
Morrer com dignidade
Envolve honra militar!
E das mil formas de matar
Um vivente na prisão
Quem sabe, o Paredão
Ainda guarde fundamento
E tombar no fuzilamento
Seja a melhor opção.

 

Aqui a morte vem “de cima”,
Vem da pena do tirano
Do carrasco que Floriano
Escolheu pra esta guerra:
O afamado “Treme-Terra”
O “Demônio do Sertão”
Com poder e decisão
De condenar, sem defesa
Vai lotando a fortaleza

À espera de execução.
 

Antonio Moreira César
O algoz de tanta gente
Tem nome e até patente:
É Coronel e Interventor!
Anda semeando o terror
Pelas terras catarinas
Na ânsia assassina
De punir qualquer erro
Nessa Ilha do Desterro
Veio cumprir sua sina.

 

Por isso que compreendo
O carcereiro e o soldado,
Todos dois são comandados
Pela força superior,
E até pressinto o horror
Quando não há alternativa:
A hierarquia é conclusiva
E se sabe a consequência
De oferecer resistência
À ordem definitiva.

 

[...]

Escute! Ouço passos...
É preciso me apressar!
Estão vindo me buscar
Com a derradeira escolta,
É a viagem sem volta
É a forca que me espera...
A memória acolhera
E só me resta a lembrança
Da mulher e das crianças,
Me esperando na tapera.


Amigo, segure o lenço!
Já não me resta nada...
A sorte foi lançada
E não há como evitar,
Se conseguires voltar
Leva esse pano sagrado
E no rancho abandonado
Entrega pra minha prenda,
A última oferenda
Deste pobre condenado.


Diz pras gurias,
Que o pai era decente
Que foi um índio valente
E jamais froxou o garrão,
E ao guri, meu irmão
Diga que seja honrado,
E que se um dia for soldado
Que lute por Liberdade,
Sem esquecer a identidade
Nem este lenço encarnado.


Me perguntas quem eu sou?
De onde venho?
Pra onde vou?
Sou apenas um soldado,
E este lenço colorado
Foi tudo que me sobrou...