MEMÓRIA DE TROPA E TEMPO

Osmar Antonio do Valle Ransolin

Um aprumo nos arreios,
Lá se vão - horas de ronda
E a lua velha, redonda,
Parece tocar o chão,
Vertendo da imensidão,
A crueza do seu pranto
Uma luz - que em cada canto
Refulge em cumplicidade,
Envolvendo a Humanidade
Co’a palidez de seu manto.


Olha o gado pastando
E olha pra o céu eterno,
E nestas rondas de inverno
Segue em si mesmo, pensando,
E se pergunta, até quando
Vai ruminar lonjuras,
E saborear amarguras
Que a vida lhe apresenta,
Vivendo sob a tormenta
Sem saber o que é doçura!


Feliz mesmo é o gado...
Vive rude, na inconsciência,
Não sabe que sua existência
É de um viver condenado.
Nunca foi atraiçoado!
Não sofreu por mal de amor,
- É só presa e predador -
E quando segue ao matadouro
Deixa o legado do couro,
No braço do laçador.


Talvez o quero-quero
No seu viver sentinela,
Mire sobre a cancela
Este mundo abarbarado,
E repita o velho brado
Dos quem amam a Liberdade:
Que o tempo não tem idade
- A gente é que esmorece -
E que o homem envelhece
Buscando a felicidade.


Quem sabe até o cavalo
Que serve por toda vida,
Que enfrenta com ele a lida,
E não teme sequer a morte
Entenda melhor a sorte,
Desta ciranda campeira...
E não seja um polvadeira
Porque coragem lhe sobra,
Com o preço que a vida cobra,
Dos que nascem na fronteira.


E ao escutar os paisanos,
Que cantam as patacoadas,
As estórias bem contadas
Dos ginetes veteranos,
Repara como os humanos
Mantém a capacidade,
De unir-se em fraternidade
Cantando à voz contente,
Quando existe tanta gente,
Sofrendo na orfandade.


Queria ser um bicho,
Desses que nasce no mato.
Meio homem – meio gato,
Fugindo da evolução.
Preservando no coração
A crueza da identidade
- Sinal de brasilidade -
Do índio que era liberto
E abraçou o destino incerto,
Pra vir morrer na cidade.


Changueou a troco de boia,
E tantas vezes por fumo...
Mas nunca perdeu o prumo
Muito menos a hombridade.
Preservou a identidade
E se mantendo sempre forte,
Trançou ferro co’a morte,
Olhando os grandes de frente
Pois é palanque e corrente,
E adaga do melhor corte!


E por este jeito de taura
De nunca pedir quartel,
Sempre disse o povaréu
Que ele era grosso e bocudo...
Mas diga, depois de tudo,
Que esse homem já sofreu,
E que o destino lhe rendeu
Como tributo inglório
Há lugar nesse ofertório
Para um sonho que já morreu?


Por isso se fez Tropeiro,
Trazendo dentro das veias
A força que mil maneias
Jamais irão suportar.
Trouxe a certeza secular
Do campeador legendário,
Que percorre o itinerário
E faz do seu ofício,
Sustento – vício – munício,
Pão-do-dia e santuário.


Hoje vive o apogeu
Embuçalando o futuro,
Pechando os queixo-duro
Na vida que Deus lhe deu.
Pela dor – emudeceu,
E até cansou da jornada...
Mas há de seguir na estrada
Esperando que um dia,
Possa seguir “a la cria”
Sem ficar, devendo nada.